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MUSEU MARÍTIMO DE ÍLHAVO
Peça do mês: o «mata-bicho» na pesca do bacalhau

Os navios bacalhoeiros, após uma viagem de mais de 3000 quilómetros, alcançavam os grandes bancos. Iniciava-se os trabalhos diários e a rotina de mar se impõe sobre a vida de milhares de homens que das águas frias do Atlântico Norte arrecadam o sustento de suas famílias.
Na vida a bordo certos gestos repetem-se dia após dia, sendo o «mata-bicho» uma das práticas que assinala o ciclo de trabalho.

A expressão «mata-bicho» que se encontra enraizada na cultura portuguesa tem a sua origem do Francês tuent le ver (matar o verme) que também tem vocábulo homólogo em Espanha matan el gusano. A origem deste termo envolta em contradições presume-se que seja uma narrativa de tradição popular ao invés de apoiado em factos concretos. Algumas dessas narrativas mencionam o ano de 1329, outras 1519 e ainda 1719 como data evento que ditou a origem deste vocábulo, porém todos os relatos contam uma estória semelhante, que uma tal jovem senhora da alta sociedade parisiense morreu de forma súbita e inesperada o que levantou suspeitas. Seguiu-se uma autópsia para averiguar as razões do seu falecimento, que para espanto dos médicos o coração da jovem tinha sido perfurado por um verme que ainda se encontrava vivo.

Os médicos horrorizados decidiram eliminar tão indesejável parasita, o qual se mostrou resiliente a todas as tentativas. Só após mergulharem o verme numa forte bebida alcoólica é que o bicho morreu. Passaram então os médicos parisienses a recomendar que se tomasse de manhã em jejum uma medida de vinho ou aguardente. Surge assim expressão "tuer le ver". Na obra Les 1001 expressions des Français Georges Planelles refere que o registo mais antigo do vocábulo data de 1828 e que sua origem era muito mais prosaica ao invés de uma estória efabulada.

No mar a vida é bem mais pragmática sendo que o «mata-bicho» ajudava os pescadores a aquecer e a manter o vigor no trabalho, como referiu o antigo pescador Sr. Manuel Augusto Lopes Soares:

«O maior problema que está na pesca do bacalhau é o frio. E depois a pessoa não pode estar parada, a pessoa tem de se mexer [...] O mata-bicho era para aquecer o corpo, para o sangue ficar quente, para girar melhor, para dar reação ao corpo.»

Na pesca à linha, os pescadores eram acordados ao som dos louvados, faziam a primeira refeição e seguiam para o convés onde lhes era entregue o isco. Preparavam o equipamento de pesca e o dóri para mais um dia de trabalho, assim registou João Carlos Caetano no seu diário de 1952 e 1953:

«Depois de o navio ter andado algumas milhas o capitão mandou ancorar o navio e o moço da câmara começou a distribuir o mata-bicho do costume, e depois de estar tudo em ordem o capitão deu ordem de arriar os botes, o que levava mais ou menos uma hora, indo os pescadores para bombordo ou estibordo, conforme os seus botes estivessem num lado ou no outro do navio e como estava um pouco de vento içavam as suas velas para procurar lugar para largar os seus aparelhos.

Eram cinco horas quando o navio ancorou, já tínhamos cortado o isco e alguns pescadores já tinham iscado algumas linhas e o capitão mandou o moço da câmara dar-nos o mata-bicho e às cinco e meia ordem para arriar os botes.

Segunda-feira 11 de Maio de 1953.

Os Louvados foram como era de costume, quando acabava a escala antes da meia-noite, às quatro horas e depois do almoço fomos receber o isco que neste dia foi de cinquenta sardinhas e arriarmos às cinco e meia da manhã depois de nos ser dado o mata-bicho.»

Na pesca do arrasto o «mata-bicho» decorria de outro modo, assim recorda o Sr. Manuel Soares:

«No arrasto tínhamos de ser nós a pedir ao contramestre e depois ele mandava-o distribuir. Havia sempre uns que gostavam mais, eu não gostava do bagaço simples ainda hoje me faz impressão, mas havia aqueles que pediam sempre mais:
- É pá, arranja mais um bocadinho!
Por exemplo, às vezes estávamos à ré a tratar das redes, ou isto ou aquilo, e dizíamos:
- É Mestre! Não há por aí uma mata-bichozinho?
Ele respondia que se arranjava.
- Querem com café ou querem extremo?
Mas a gente para ficar melhor queria sempre com café, mas havia sempre aqueles que pediam o extremo. Eu era com café. O cozinheiro punha lá numa cafeteira de 3 ou 4 litros uma quantidade de café e uma de bagaço, não sei se meio litro ou um marquês. Com a canequinha se tirava uma pinguinha a mim, uma pinguinta a ti, para a gente aquecer.»

O «mata-bicho» ficou nas memórias de quem andou na pesca do bacalhau e persistiu à evolução tecnológica, da pesca à linha até ao arrasto, hoje muitas destas memórias dão voz às peças que estão no Museu Marítimo de Ílhavo.
Ao visitar a sala da Faina Maior, repare no pequeno detalhe que se encontra na parede da sala dos oficiais: o corninho do «mata-bicho».

Hermínio Henriques Marques
Embarcou no navio Aida Peixoto em 1971, em 1988 fez a sua última viagem.
Desempenhou várias funções como ajudante de motorista e contramestre.

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Data: 2020-03-11



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